à la Pintura, poema de Rafael Alberti
litogravuras de Robert Motherwell
Entrevista realizada por Moacir dos Anjos, Agnaldo Farias e Adolfo Montejo Navas, nos dias 29 e 30 de julho de 2002, na cidade do Rio de Janeiro.[...]AF - Deixe-me então falar de um outro prêmio que você recebeu. Em 1975, você foi escolhido, pela APCA [Associação Paulista dos Críticos de Arte], como melhor desenhista do ano. E cabia a você, como premiado, fazer um trabalho reproduzível que serviria de prêmio para todos os outros laureados. Você fez um trabalho em xerox, o que contrariou as expectativas dos dirigentes da APCA, que terminaram vetando o seu trabalho. Existiu ai também uma tentativa de burlar, de ferir expectativas?NL - Nesse caso, não. Muitas vezes eu faço as coisas de forma proposital, mas em outras ocasiões a coisa é inconsciente ou fruto do acaso. Eu não achava que eles iam se negar a entregar aos outros laureados o prêmio que eu criei; não achava que eles iam me devolver o trabalho. Eu decidi fazer o trabalho em xerox, como poderia ter feito em offset, porque essa era a discussão do momento: a utilização dos então novos meios tecnológicos na arte contemporânea. Havia uma série de artistas - Julio Plaza, Regina Silveira, Carmela Gross, eu próprio - trabalhando dentro desse universo, que incluía o xerox, o Super 8, o vídeo. Hoje são tecnologias obsoletas, mas naquele momento não. Fiz um trabalho em xerox simplesmente por já estar trabalhando com essas técnicas. Interessava-me o meio em que eu ia fazer e mandar o trabalho. Não me interessava ser recusado. Ser recusado foi uma decorrência inesperada. Embora num outro contexto, surpresa semelhante aconteceu, por exemplo, em relação ao trabalho O Porco, ainda em 67. Eu simplesmente não podia saber, de antemão, se o júri iria aceitar ou recusar o trabalho, que foi enviado como qualquer outro para o Salão [de Arte Moderna de Brasília] com o desejo de ser aceito. Só vim a pensar em fazer a pergunta ao júri sobre os critérios de aceitação do trabalho depois que recebi a noticia da seleção. Foi aí que tive a idéia. Mas até enviar o trabalho, foi tudo muito normal. Preenchi a ficha de inscrição e mandei o trabalho querendo que fosse aceito. Não mandei para ser recusado.
[...]
Em 1990 queria fazer um trabalho que tivesse um milhão de unidades, do qual só tinha o título Um Milhão. Mais tarde, lembrei-me de uma imagem de três camelôs que vi quando criança, numa das vindas com meu pai do Rio de Janeiro, na calçada da rua Araújo Porto Alegre entre avenida Rio Branco e rua Mexico. Cada camelô tinha uma pequena banquinha, coberta de papel de embrulho colorido. Um vendia só alfinetes de cabeça, outro só barbatanas de plástico para colarinho de camisa social. São as coisas mais toscas em termos de produtos industriais. Na minha cabeça de criança, achava incompreensível, e ao mesmo tempo atraente e estranho, que alguém pudesse viver vendendo esses objetos tão insignificantes. Mais que isso, me perguntava como poderiam existir indústrias empenhadas na produção desses objetos. O terceiro camelô vendia marionetes de papel e borracha, que ele manipulava com uma linha no braço. Eu achava aquilo mágico. Em 1995, decidi juntar essas três imagens, que resultaram no Camelô. Para ele, criei a palavra humiliminimalismo, o minimalismo do muito humilde, da quase insignificância física.