Pela fatigada praça do bairro vicioso, onde os lampiões allumiam desvãos com luz erma, arrastam vultos. Numa esquina, ao fundo, ha um bar. Vem das portas amplas o barulho confuso das vozes e a sacudida plangência do piano fanhoso. Passa rapido, na direcção do caes, um auto levando gente a cantar, numa alegria de sabbado caxeiral. E volta o sossêgo a fatigada praça, ao fundo da qual as portas fixam a sua grande mancha clara e sonora.Somnolento, o rondante olha o luar. Depois, caminha uns passos, atravessa a calçada, agarra pelo hombro uma senhora que dormia. A sombra vai sentar-se mais longe, noutra soleira de porta. E o rondante, distrahido, volta á contemplação do luar, bocejando.
Mulheres, sahindo dos beccos equivocos que desembocam na praça fatigada, param perto de homens, murmurando convites.
– É doloroso um convite assim, sem conhecer as pessoas.
– Meu caro poeta...
– Meu caro pintor...
– O bar deve estar delicioso.
– Fantoches da meia-noite...Como são infelizes, trágicos!
– Infinitamente, meu caro pintor.
Devemos ter o ar vagabundo dos philosophos sem importância. Começamos a dizer baixo reflexões penosas.
– Nós também somos fantoches.
– Evidentemente.
– São todos, somos todos fantoches...Não vês os cordéis do destino a movê-los, a mover-nos? São cordéis imponderáveis... E o destino sabe articular-nos com habilidades de contra-regra cruel...
– Nunca nos poderemos divertir. Porque será que enxergamos esses fios que movem as creaturas? Ellas não sabem de nada...
– A meia-noite é o principio da vida differente. Depois da meia-noite, todas as creaturas têm a sua finalidade trágica marcada no rosto, ou no gesto, ou na voz. Todas se confessam, sem querer.
– Todas mostram os cordéis...
Seguimos pelo caes, á sombra das arvores. Cada vulto que encontramos nos dá a sensação de uma personagem inconsciente a desempenhar isolada o seu papel.
– Fantoches!
– Si eu fosse o contra-regra...
E o luar, como uma gambiarra excepcional, illumina do alto a farça monotona...
Rio, dezembro de 1921,
Ribeiro Couto













Publicado por Monteiro Lobato em 1921, esta narrativa feita de imagens teve pouca circulação.
Existe um exemplar na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
Um fac-símile aparece na obra de Álvaro de Moya e Moacy Cirne, "Literatura em Quadrinhos no Brasil", da Nova Fronteira.




































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